Relacionamento: Real ou Conto de Fadas?

Muitas de nós, mulheres (na verdade a maioria), entramos num relacionamento afetivo com um modelo fictício na mente e no coração.

Isso ocorre porque, em todo relacionamento ou projeto que a gente entra, temos sempre uma imagem mental e emocional do que esse relacionamento ou esse empreendimento será! Imaginamos muitas coisas, e essas imagens nos trazem sentimentos e emoções correspondentes. Quando imaginamos coisas boas, criamos sonhos e ficamos motivados para realizar esses sonhos; quando imaginamos coisas ruins que nos causarão danos ou sofrimentos, nos afastamos desses projetos e não os transformamos em sonhos. Esse é simplesmente um mecanismo fundamental de sobrevivência humana. Ir de encontro ao que nos dá prazer e se afastar do que no causa sofrimento.

E a psicologia comportamental se baseou exatamente nisso: os comportamentos que eu quero que sejam repetidos mais vezes, eu recompenso, enquanto que os comportamentos que eu quero reduzir ou eliminar, eu puno ou simplesmente não os recompenso. E essa é a linha de Skinner, e que começou com Pavlov com o condicionamento de seus cachorros. Quem estiver interessado (a) é só ler sobre Skinner e sobre os experimentos de Pavlov, os famosos comportamentos condicionados.

Pois bem, mas o que tudo isso tem a ver com os relacionamentos?

Tem tudo a ver. Por isso vamos voltar a falar sobre os sonhos que a gente cria em nossas mentes e como eles influenciam as nossas vidas, e principalmente as nossas vidas como mulheres.

As mulheres, quando meninas, observam os modelos femininos e tentam se identificar com eles – com os modelos que lhes parecem mais atraentes e recompensadores. E é aí que entram os encantadores contos de fadas. E as fadas são sempre lindas, boas, e sempre encontram o amor de um príncipe encantado. Esse também é lindo, atraente, e geralmente tem um cavalo branco e forte, e está a procura da amada, se predispondo a todos os sacrifícios para encontrá-la (e é claro que aqui nos vem a mente as estórias da Cinderela, da Rapunzel, da Branca de Neve, e tantas outras). E dessas estórias, nenhuma menina quer ser a bruxa má e feia, que no final é sempre castigada pelas maldades cometidas, principalmente pelas maldades contra a princesa boa. Toda menina que ser a princesa escolhida pelo belo príncipe que a levará morar num castelo lindo e cheio de serventes para servi-la. Daí a estória sempre acaba com o famoso: “e foram felizes para sempre”.

Então essa é a nossa primeira imagem do relacionamento ideal: ser a princesa escolhida pelo príncipe encantado.

Depois a menina em nós vai crescendo e logo já não quer mais ser confundida com a criança inocente que acreditava em contos de fadas. Ela já não quer mais saber da cor rosa, agora se atreve a gostar de cores diferentes, e procura modelos femininos mais apropriados para sua idade, da puberdade à adolescência. E aí a mídia entra com força total no seu mundo interior, desde que este agora se encontra sedento por novos modelos femininos, de ideais que são valorizados pelo meio social. Nestas idades a maioria das meninas estão despertando para a sexualidade, então a procura se focaliza em mulheres ideais, com corpos ideais, com pele sem nenhuma imperfeição, com um busto do tamanho ideal, com um bumbum perfeito, com os lábios perfeitos, com as sobrancelhas perfeitas, e assim por diante. E a cada dia a lista vai aumentando para conseguir finalmente ser a mulher ideal – o que nunca alcança mesmo porque esse é um jogo ilusório, e o que é perfeito hoje, já vai ficando obsoleto amanhã, e essa é a própria armadilha do jogo. E tudo começa a ser manipulado cada vez mais pelo mundo masculino (e onde há oportunidade de gerar dinheiro); há criação de mais ideais e mais necessidades artificiais. O tamanho do bumbum vai crescendo, o tamanho dos seios também, isso até desafiando toda a lei da gravidade! A ideia é que pra conseguir o príncipe encantado (ou segurar o seu príncipe encantado), agora a mulher tem que ter esse modelo de corpo ideal. (E é por isso que as clínicas de cirurgia plástica nunca param de cortar mulheres de todas as idades e encher seus corpos de silicone, água salina, e por aí afora).

O problema é que a insatisfação das próprias mulheres consigo próprias também só aumenta. Isso ocorre porque infelizmente essa corrida louca pra ser a mulher de corpo ideal acaba as transformando em cascas, por dentro cada vez mais ocas, mais vazias, sem conteúdo, sem essência, e cada vez mais insatisfeitas e infelizes.

Quando essas mulheres entram num relacionamento afetivo, o modelo infantil retorna aos seus subconscientes e elas ainda querem ser tratadas como princesas únicas, e escolhem seus príncipes baseando-se agora nos modelos masculinos da temporada. Esses precisam ser fortes, ter músculos de quem malha horas e horas a fio, precisam ter bastante dinheiro para lhe pagar todas as plásticas e tratamentos de beleza que desejam, e o cavalo branco agora é um carro bem charmoso pra que todos vejam com quem ela se casou bem. Nesse mundo de fantasias, trabalhar seria uma vergonha, pois em suas imagens de casamento ideal essas princesas seriam apenas musas, paparicadas e alimentadas em todos os sentidos pelos seus servos; aliás o marido tem que ser, de certa forma, um servo. E por que não? Depois de todo esse cuidado e investimento em si próprias, elas não merecem viver como rainhas? E com esse sonho elas se casam. Muitas não achando o ideal na mesma faixa etária acabam se casando com os velhos ricos que pelo menos lhes comprarão todas as coisas da vida artificial das princesas. Afinal de contas, esse é o mundo das aparências. Mas poucas conseguem ser felizes. A fantasia sempre cai um dia, e o vazio é muito doloroso e sofrido.

Bem, aqui alguém pode argumentar que nem todas as mulheres são assim, ou que nem todas que se casam com homens velhos e ricos são infelizes, se casam por interesse e assim por diante. O meu ponto aqui é ajudar as que estão presas nessas fantasias e sofrendo. E todas nós sabemos que infelizmente tem muitas mulheres que estão se iludindo e seguindo essa trajetória que só resulta em sofrimentos e infelicidade. Algumas acordam logo, e tomam outra direção com mais significado em suas vidas. Essa é a direção mais acertada.

Mas mesmo deixando essa corrida cega e insana da busca do corpo “ideal” de lado (que é uma substituição atual cruel para o ideal das fadas nos contos infantis, pois o modelo atual nos transforma num objeto sexual carnal para os olhos masculinos), todas nós trazemos um restinho dos contos de fada infantis dentro de nosso inconsciente coletivo. E quando nos casamos, precisamos trabalhar com essas ilusões, amadurecer os nossos modelos, e abraçarmos com carinho esse crescimento emocional. Vamos ver como esse processo se desenrola:

Quando um casamento se inicia:

Quando um casamento se inicia, a realidade aos poucos vai se revelando, e saindo daquele esconderijo onde cuidadosamente a havíamos escondido. E a venda dos nossos olhos vai caindo. E um dia acordamos e nos deparamos com a realidade. Nesse conflito, uma briga dentro de nós se inicia: é a briga entre o sonho e a realidade (infelizmente alguns casamentos brigam com esse conflito por muitos anos!).

Para a percepção da mulher é como que se o marido se recusasse a ser o príncipe encantado que ela sempre quis. As coisas que acontecem não seguem o sonho ideal que ela tinha. E de repente, sem se dar conta, a mulher vai ficando cada vez mais enraivecida, e essa raiva é muitas vezes descarregada todos os dias em cima do marido, pois ela pensa que o culpado é sempre ele, ele é quem não corresponde mais ao seu sonho inicial. Ela chega até a pensar que se casou com um homem errado. E assim pensando, ela mais e mais se amargura, pois agora já está casada!

No entanto, tudo isso faz parte do seu próprio processo de amadurecimento pessoal e de crescimento emocional que está pronto para se iniciar.

Ela começa a ver esse marido com muitas variações de humor, o considera insensível (ele não adivinha o que ela deseja). – ” Ter que falar pra ele o que eu quero?” Ah não, ela pensa, “isso já estragaria tudo”!

Se voltarmos aos contos de fadas: a princesa não tinha que explicar ao príncipe encantado o que ela queria, ele já sabia!

Esse marido não lhe compra aquele anel de diamante caro que ela bem queria; esse marido não chega em casa a abraçando, não é romântico como ela sonhava. Ele não age como que se tivesse encontrado a princesa de seus sonhos; ele não está sempre perfumado e atraente, aliás esse marido até suja a casa toda quando chega em casa, e ela tem que limpar tudo depois! Ele não a satisfaz como o príncipe encantado do cavalo branco dos contos de fadas que está em seu inconsciente, aquele que estava sempre atraente a cortejar a princesinha mais linda do mundo. (e isso se passa no mundo inconsciente de toda mulher em algum ponto de sua vida).

(Algumas mulheres podem ficar furiosas comigo ao ler tudo isto. Talvez eu também ficasse muito furiosa se tivesse lido este mesmo artigo quando eu ainda estava vivendo o meu próprio conto de fadas! 🙂 )

Mas isso não acontece com os homens também? Também não ficam esperando que a mulher esteja sempre linda e arrumada, de bom humor, e disponível só pra eles, desejando fazer amor todas as noites? E talvez lhes servindo como um rei mesmo quando as louças estão todas sujas e empilhadas na pia, e as nossas crianças chorando, necessitando de atenção? Os homens não fazem a mesma coisa ou pior?

A resposta é óbvia. Isso também ocorre com os homens sim. Mas esse é um tópico para meu próximo artigo!

Então chegamos ao ponto onde podemos começar a entender o seguinte:

Muitas das desavenças e conflitos entre casais se iniciam nessas expectativas não realistas; de contos de fadas, de comerciais de TV, de fantasias de Internet e redes sociais, e essas expectativas, se não encaradas de frente e desmascaradas dentro de nós mesmos (as), vão se sedimentando com o tempo até se transformarem em grandes muralhas de concreto entre marido e mulher. E quando isso ocorre, a mulher culpa o homem e o homem culpa a mulher. O casamento vira um poço de insatisfação e de amargura, e muitos casamentos chegam a ser dissolvidos por causa de tamanha distorção de realidade! E quantas crianças acabam sendo vítimas desses conflitos entre os pais!

Então o objetivo deste artigo é simples: que a gente comece a enxergar o (a) nosso (a) companheiro (a) como um ser humano imperfeito assim como nós o somos, e que tem cansaço, assim como nós temos, e que tem dias bons e maus, assim como nós também temos, e que às vezes são chatos(as) e exigentes, assim como nós às vezes também somos, e que precisam ser ouvidos (as) e entendidos (as), assim como nós também precisamos, e que não conseguem “ler as nossas mentes”, assim como não conseguimos ler as mentes deles (as), … e assim por diante.

Quando finalmente nos alertamos e acordamos para a realidade, e fazemos este simples exercício de sinceramente nos colocarmos no lugar deles (as), nos esforçamos até conseguirmos ver as coisas sob a perspectiva deles (as) , algo fantástico começa a ocorrer: a dinâmica de nossos relacionamentos começa a mudar!

Os contos de fadas voltam tranquilo para a inocência de nossa infância, e começamos a crescer e a evoluir de maneira que nunca tínhamos imaginado antes! Uma grande força interior que nem conhecíamos em nós mesmas começa a se desenvolver mais e mais, e assim, para nossa surpresa, vamos nos tornando uma fortaleza, não de sofrimento, mas de sabedoria e de tranquilidade, e quando nos damos conta, fomos capazes de construir o nosso próprio auto-respeito e a nossa própria auto-estima dentro de um relacionamento real, com um homem real e humano como nós. E descobrimos que somos felizes!

E por incrível que pareça, essa liberdade que ganhamos e essa tranquilidade são capazes de nos libertar de outras fantasias que nos aprisionavam antes e nem sabíamos. Descobrimos que já não precisamos ser fantoches do mundo manipulativo da beleza, e a nossa beleza natural de repente começa a florescer e quando nos olhamos no espelho descobrimos que simplesmente ficamos mais bonitas !

Independente de nossa idade, a jovialidade começa a se revelar em nosso sorriso, em nossa paz de espírito, e observamos que até a nossa pele fica mais bonita e saudável, e nossos cabelos também – isso porque mulher é mulher e gosta de ficar sempre bonita – mas agora porque é bonita de verdade, para si mesma – ela fica bonita mesmo! E ela finalmente descobre, surpresa, que aprendeu a ser feliz! E que a felicidade verdadeira só existe dentro de pessoas verdadeiras e dentro de relacionamentos verdadeiros!

E agora que ela não precisa mais controlar e transformar o marido em príncipe encantado; o relacionamento, para sua surpresa, também muda; e esse relacionamento começa a ficar cada vez melhor e mais feliz.

Mas se o marido não mudou, se ele continua o mesmo, como tudo isso ocorreu?

Ocorreu porque o relacionamento é um processo vivo, dinâmico, e quando um cresce e se desenvolve como parte do processo (não só individualmente), a dinâmica do processo também tende a mudar! E isso, na maioria dos casos, faz o outro mudar também! Tudo é como um jogo de tabuleiro, você muda uma peça do jogo, e o jogo muda também. O casamento é um sistema dinâmico!

Mas alguns casamentos se dissolvem assim mesmo. Por quê?

Alguns casamentos se dissolvem por muitas outras razões: vícios de um dos cônjuges (álcool, drogas, etc), constante traição conjugal, relacionamentos abusivos, casamentos que se iniciaram por outros motivos escondidos: como tirar vantagem do outro (casar se com alguém porque é rico ou rica, e assim por diante).

Quanto aos casamentos que se iniciaram porque havia amor entre os dois, e começam a se deteriorar gradualmente até irem se transformando em um mar de lamentações (em vez de um mar de rosas), a minha própria experiência de vida (como mulher, mãe e avó de mulheres), mais a minha experiência profissional, me fizeram ver a influência das expectativas ilusórias impedindo a felicidade de muitas mulheres. Mudar essas expectativas quase infantis que temos, mas que nunca nos demos conta disso antes, é a chave para crescermos e sermos felizes de verdade.

Muitos anos, ajudando mulheres e casais, me fizeram participar de suas histórias de vida, e ver suas similaridades e detectar as causas dessas insatisfações e conflitos. Quando os relacionamentos deixam de lado os modelos dos contos de fadas e resolvem crescer, eles florescem de maneiras incríveis e belas! Esses processos de crescimento interior e conscientização são muito reveladores! E eu continuo admirada, feliz e radiante toda vez que vejo essas mudanças ocorrendo nas vidas de muitas mulheres e em muitos relacionamentos. É muito recompensador constatar que essas mudanças lhes trazem crescimento emocional e espiritual, e com estes, a esperada paz e alegria de viver que não tinham antes!

Virginia M.S. Pearson, Ph.D.

Publicado por virginiampearson

Ph.D. em Psicologia Social e Gerenciamento Internacional. Consultora para Multinacionais, foi professora de cursos de mestrado e MBA para varias universidades americanas. CEO da Empresa de Consultoria e Treinamentos Global Aliance USA. Doutorado especializada em Psicologia Intercultural. Psicanalista Clínica, Hipnoterapeuta Clínica, Life Coach, NLP practioner, pedagoga, educadora, mestre em Psicologia Social.

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